Por Beto Carvalho
A política de Camaçari vive, atualmente, um capítulo digno das grandes tragédias do teatro clássico. Como na peça Júlio César, de William Shakespeare, assistimos à história de um líder traído justamente por quem mais confiava. Neste enredo local, o papel de César é interpretado por Antonio Elinaldo — prefeito por dois mandatos e figura central na política do município. Já o papel de Marco Brutus, o traidor emblemático, é assumido por Flávio Marco, seu antigo aliado e afilhado político.
Elinaldo apostou alto ao escolher Flávio como seu sucessor. Deu-lhe visibilidade, estrutura, confiança e um lugar de destaque no projeto político que lidera há anos. No entanto, após a derrota nas urnas, a narrativa ganhou contornos de tragédia: Flávio, agora convencido por novos aliados, passou a agir nos bastidores contra aquele que o ergueu politicamente. Usando o argumento de que Elinaldo estaria “desgastado”, iniciou um movimento silencioso de enfraquecimento de seu próprio mentor.
O episódio remete à cena mais emblemática da tragédia de Shakespeare, quando César, cercado por conspiradores, é apunhalado por Brutus, seu amigo mais próximo. Ferido, chocado, ele exclama: “Até tu, Brutus?” A mesma pergunta ecoa hoje pelos bastidores da política camaçariense: “Até tu, Flávio Marco?”
O problema não está na ruptura em si — divergências são naturais e saudáveis na democracia. O que choca é a forma como tudo foi conduzido: com silêncio, dissimulação e conspiração. O que deveria ser debate virou traição. O que deveria ser lealdade virou cálculo frio.
Mas, como no teatro, quem dá a palavra final é sempre o público. Em Júlio César, o povo romano, ao perceber as reais intenções dos conspiradores, se volta contra eles. Em Camaçari, o povo também observa — atento, crítico, e com memória.
O tempo dirá se Flávio Marco será lembrado como um traidor oportunista ou se Elinaldo permanecerá como o líder que, apesar das falhas, sempre colocou Camaçari acima dos próprios interesses.
A tragédia ainda está sendo escrita. Mas uma certeza permanece: em política, como no teatro, o palco muda — mas a verdade sempre encontra seu caminho até o público
Beto Carvalho
Comentarista Político. Atua na análise crítica da política local e nacional, com foco em cidadania, transparência e desenvolvimento econômico e social de Camaçari.



